A Psicologia Nordestina e as Eleições




Um texto de: Mateus Matos Diniz

Vejo muita gente reclamando que Rio de Janeiro e São Paulo estão um caos absoluto, que está impossível, et cetera. Acontece que isso, se comparado ao caos Nordestino, é meio que um paraíso.

Se vocês querem saber, entre as 50 cidades mais violentas do mundo, 20% da lista é composta apenas de cidades nordestinas. Dessas 50, as duas cidades brasileiras que fazem parte do TOP10 são nordestinas [Natal (3º) e Fortaleza (7º)].
Esse nordeste tropical, seguro, das praias e da água de coco, é apenas fruto de publicidade. Nossas metrópoles e cidades interioranas, em geral, são governadas pelo crime organizado, e vivemos aqui em um estado de pânico absoluto.
Contudo, uma distinção que poucos fazem é o fato de que a insegurança -- principal problema do Brasil -- meio que já está internalizada na personalidade das pessoas daqui. Tudo para nós sempre foi inseguro. Para a maioria das pessoas daqui, sobretudo as do interior, a insegurança é um dado da realidade. Afinal, qualquer pessoa pode morrer a qualquer momento. Muitos pensam assim por incapacidade de universalizar os acontecimentos. Nenhum deles imagina o que o governo tem exatamente a ver com a morte das pessoas.
Psicologicamente falando, já estamos muito dessensibilizados em relação à insegurança.
Toda essa incapacidade de enxergar os problemas sob um olhar macroscópico acaba nos "animalizando" um pouco, pois, sem a noção de que somos uma sociedade, uma civilização, o espírito que reina é o do cada um por si.
E sendo assim, escapa a muitos a idéias de que uma atitude tomada por eles pode prejudicar o vizinho. Na verdade, pensam que, ainda que prejudique, aquilo vale a pena, porque cada um luta por sua sobrevivência.
Aqui não há tanto espaço para articular costumes e valores com a própria vida, há apenas a busca obstinada pela comida, pela energia elétrica, por um entretenimento no final de semana, e assim por diante. Dessa forma, como a maioria não tem condições de raciocinar para além disso, convertem seus desejos todos em dinheiro. Aquele que dá dinheiro é semelhante a quem dá a essas pessoas o próprio direito à vida. E quem foi que deu dinheiro? Foi o Lula, foram os amigos do Lula.
Muitos até se preocupam, "mas você está falando das senhorinhas católicas piedosas do interior?".
Infelizmente, toda aquela romantização em torno das velhinhas do interior é apenas uma fantasia. A maioria delas passa o dia alimentando maledicências, nutrindo superstições e adorando tudo que é proposto pela Teologia da Libertação -- que tem uma força enorme nesses lugares.
Com essas pessoas não existe argumento, existe aqueles que apenas prometem e aqueles que dão algo imediatamente. "Fome Zero", "Bolsa Família", "Bolsa Escola", "Minha Casa, Minha Vida". Ninguém nesses lugares sabe que isso foi criado com crédito artificial, e muito menos tem condições de raciocinar que a pindaíba na qual estão hoje é fruto da gastança do passado.
O que existe é uma memória boa relacionada ao Lula. Não importa se ele foi preso, não importa se aquilo não existia. Se disserem que ele morreu, mas vai ressuscitar ao terceiro dia para ser eleito, todos vão votar nele.
Para que tenham uma ideia, certa vez, estava conversando com uma pessoa, que muito me quer bem por sinal, sobre as eleições. Ela tem exatamente o esteriótipo que estou descrevendo: a criatura não parava de falar do Lula. E eu não parava de tentar explicar que ele está preso, que ele é um criminoso, um enganador, et cetera. Não adiantou em nada.
Lá pelas tantas, resolvi falar: "Pois então, se não tem problema, quem vai roubar sou eu. Se eu for preso, que se dane!". O sujeito me olhou com um olhar apavorado, e disse: "Pelo amor de Deus! Não diga uma coisa dessas nem de brincadeira! Ia ser o maior desgosto do mundo pra mim!". 
Entenderam? Quando é um ato universal (política) não tem o mesmo apelo do ato imediato (ente querido envolvido em roubalheira). Não há uma conexão entre uma coisa e outra. É como se o crime do Lula não fosse exatamente crime, mas uma desavença qualquer entre um pessoal.
Na cidade a mentalidade é a mesma. Porém, como a tecnologia também dá asas à imaginação, o objeto deixa de ser o dinheiro em si, e torna-se as delícias da vida burguesa: hamburguerias, Netflix, diploma, roupas de marca e o entretenimento em geral. São pessoas que vêem dezenas de mortes todos e dias, mas cuja preocupação maior ainda é a interação social. São caipiras com dinheiro. 
Por isso que o atual governador do Ceará (Camilo-PT), um dos principais responsáveis pela situação absolutamente caótica de nosso Estado, no momento, está se reelegendo no primeiro turno. E também por isso que o discurso da "segurança" do Bolsonaro, muitas vezes, não surte tanto efeito. O que surte efeito são as carícias do Ciro Gomes, que promete livrar todo mundo de todas as dívidas financeiras.
Por aqui, você tem que convencer as pessoas de que elas precisam se preocupar com a vida delas, pois todas estão dispersas demais com imediatices do cotidiano, de maneira que não conseguem enxergar nem o que sustenta esse cotidiano (a própria vida) e nem o que está para além dele (seus valores, sua pátria e o próprio Deus). 
Se eu fosse o pessoal mais conservador, daria mais atenção a este fenômeno. São muitas pessoas, muito mal educadas, e o tempo é curto.
PS: Como também sei que vai começar aquela besteirada de "Orgulho de Ser Nordestino", explico logo: 
Não falo isso para humilhar o Nordeste, mas exatamente porque o primeiro passo para corrigir um problema é confessá-lo.

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